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domingo, 16 de maio de 2010

Tempelhof: o fim do aeroporto que salvou Berlim

Em 30 de outubro de 2008, o histórico Aeroporto de Tempelhof, em Berlim, foi fechado, após quase 85 anos de operação. Chegava ao fim a história de um aeroporto emblemático, que foi a chave da salvação de Berlim Ocidental quando os soviéticos fecharam todos os acessos terrestres à cidade, em 1948.
Nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, três grandes aeroportos se destacaram na Europa: Londres-Croydon, Paris-Le Bourget e Berlim-Tempelhof. A aviação comercial na época mal havia começado, após a Primeira Guerra Mundial, quando Tempelhof foi aberto ao tráfego aéreo, em 8 de outubro de 1923.

O terreno onde foi contruído o aeroporto pertenceu, na Idade Média, à Ordem dos Cavaleiros Templários, daí a designação dada ao mesmo.

A companhia aérea Deutsche Luft Hansa AG (depois denominada simplesmente Lufthansa), foi fundada em Tempelhof em 6 de janeiro de 1926. Em 1927, foi concluído o primeiro terminal de passageiros, que teria vida curta, sendo substituído por um novo edifício a partir de 1936.

Berlim, nos planos do ditador Adolf Hitler, que assumiu o governo alemão a partir de janeiro de 1933, deveria se constituir na mais monumental cidade da Terra, e o Aeroporto de Tempelhof não foi exceção. O arquiteto-mor do Terceiro Reich, Albert Speer, mandou reconstruir Tempelhof como o maior e melhor aeroporto de sua época, e o arquiteto Ernst Sagebiel foi designado para projetar e construir a obra.

Tempelhof deveria ser, na visão dos nazistas, a porta de entrada da futura "Capital do Mundo", Germânia, novo nome que Berlim deveria ter no futuro Reich.

O terminal de passageiros de Tempelhof tinha a forma geral de um quadrante de círculo, com 1200 metros de extensão, e era todo revestido de pedra calcária. Sem dúvida, era um edifício impressionante para a época, tanto que o arquiteto britânico Sir Norman Foster o denominou como "A mãe de todos os aeroportos".
O teto foi construído na forma de uma arquibancada, para que os cidadãos de Berlim pudessem assistir demonstrações aéreas e espetáculos terrestres no pátio, bem ao estilo da grande máquina de propaganda nazista.

As obras no aeroporto, entretando, não foram totalmente concluídas durante o período nazista, sendo interrompidas em 1941 devido à eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Tempelhof nunca foi utilizado como aeródromo militar pela Lufwaffe, e serviu durante a guerra apenas como campo de apoio de emergência para aeronaves militares com problemas mecânicos ou atingidas em combate. Entretanto, uma ativa fábrica de aeronaves militares funcionou em uma grande cadeia de túneis subterrâneos, principalmente para a produção de bombardeiros de mergulho Junker 87 e, posteriormente, de caças Focke-Wulf 190.

Os soldados soviéticos tomaram posse de Tempelhof durante a Batalha de Berlim, em 24 de abril de 1945. O comandante militar do aeroporto, Rudolf Boettger desobedeceu às ordens superiores de explodir o aeroporto, que foi tomado com relativamente poucos danos. Quando os russos tentaram invadir os cinco níveis subterrâneos, onde eram fabricados os aviões militares, sofreram muitas baixas devido à armadilhas colocadas pelos soldados em fuga, e o comandante das tropas invasoras mandou então inundar os túneis inferiores, repletos de munições não detonadas, os quais se encontram cheios de água e inexplorados até hoje.

Os russos entregaram Tempelhof para as tropas americanas de ocupação, já que estava na área que deveria ser administrada pelos aliados depois da guerra, a futura Berlim Ocidental. Engenheiros do 852º Batalhão de Engenharia de Aviação americano chegaram em 10 de julho de 1945 para iniciar os trabalhos de reconstrução do aeroporto.

Em 20 de junho de 1948, os soviéticos tentaram isolar Berlim Ocidental durante a Guerra Fria, fechando todos os acessos terrestres por rodovia e ferrovia. As potências ocidentais, especialmente os americanos e os ingleses, ficaram entre o grande dilema de abandonar a cidade para os soviéticos ou tentar abastecê-la pelo ar, uma tarefa gigantesca por se tratar de uma população de 2,5 milhões de habitantes.

Por fim, foi decido tentar o abastecimento via aérea, que consistiu em uma das maiores proezas da aviação na história. Durante 15 meses, a cidade foi abastecida através de três corredores aéreos de 25 milhas de largura. O primeiro voo de abastecimento ocorreu em 26 de junho, com aeronaves Douglas C-47 da USAF (foto abaixo) transportando 80 toneladas de suprimentos diversos. Uma nova pista de 1840 metros foi construída para complementar a única pista original de 2094 metros. As duas pistas eram praticamente paralelas, no sentido leste-oeste.
Aeronaves da RAF britânica e empresas civis, contratadas pelos governos americano e britânico, assim como aeronaves da US Navy, se juntaram para criar o que, até hoje, foi a maior "ponte aérea" da história, realizando um total de 278 mil voos e transportando pouco mais de 2 milhões e 326 mil toneladas de suprimentos, dois terços das quais eram de carvão.

O último voo da ponte aérea de Berlim aterrisou em Tempelhof em 30 de setembro de 1949, quando os russos afinal cederam e reabriram os acessos terrestres para Berlim Ocidental. Uma estrutura logística de emergência foi mantida, para o caso dos russos fecharem novamente o acesso à cidade.
Embora os militares americanos administrassem e fossem os principais usuários do aeroporto, o mesmo serviu ao tráfego civil por muito tempo depois da guerra. A primeira empresa aérea a fazer voos internacionais depois do conflito foi a American Overseas Airlines - AOA, uma divisão internacional da American Airlines, a partir de 18 de maio de 1946, permanecendo ativa durante todos os meses do Bloqueio de Berlim.

A localização central do aeroporto em Berlim foi um dos grandes atrativos para sua operação comercial.

Várias empresas passaram depois a operar no aeroporto, quando os americanos resolveram abrir mão das restriçoes ao tráfego civil estabelecidos pelos militares que usavam o aeroporto. A Pan Am, a Air France e a BEA foram alguns dos operadores que passaram a usar Tempelhof durante esse período. Durante a década de 1960, a Air France mudou suas operações para o aeroporto de Tegel, pois as pistas curtas de Tempelhof não permitiam a operação dos jatos Sud Aviation Caravelle da empresa, com carga total.
Em 1961, com a construção do Muro de Berlim, o governo da Alemanha Ocidental introduziu um subsídio de 20 por cento nas passagens para Tempelhof, para manter o tráfego ativo.

A Boeing foi pioneira na operação com jatos em Tempelhof, em 2 de dezembro de 1964, utilizando um Boeing 727-100 alugado da Pan Am para demonstrar a capacidade desse avião de operar nas pistas curtas do aeroporto.

A Pan Am adquiriu depois 8 jatos 727-100, configurados para levar 128 passageiros em classe única a partir de Tempelhof. A BEA, posteriormente, utilizou aeronaves BAC One-Eleven 500 em suas operações, que substituíram os Vickers Viscount então em uso.

Em 1971, Tempelhof teve o seu pico de atividade comercial, atendendo 5,5 milhões de passageiros no ano, de um total de 6,1 milhões de passageiros atendidos por todos os aeroportos de Berlim Ocidental naquele ano. Posteriormente, o tráfego foi sendo direcionado para Tegel, então bastante sub-utilizado. Os russos também relaxaram o controle no tráfego terrestre, a partir de 1972, reduzindo a demanda pelo transporte aéreo.
Quando a British Airways (sucessora da BEA) e a Pan Am transferiram suas operações para o novo terminal de Tegel, em 1975, Tempelhof ficou restrito ao tráfego militar americano por 10 anos, até 1985.

Embora o Aeroporto de Tempelhof tivesse pistas curtas para operação de jatos, aeronaves de grande porte como os Boeing 747, McDonnell-Douglas DC-10 e Lockheed L1011 Tristar chegaram a operar eventualmente no aeroporto. Aeronaves de carga Lockheed C-5A Galaxy eram operados regularmente pelos militares americanos.

Depois de 49 anos de operação, a USAF deixou Tempelhof em agosto de 1994, entregando a sua administração para as autoridades alemãs.

Depois da unificação alemã, o governo alemão deu início a planos de desativar Tegel e Tempelhof e concentrar todo o tráfego aéreo de Berlim em Shönefeld, cujo aeroporto seria ampliado e transformado no Berlin-Brandemburg International Airport. A conclusão desse aeroporto está prevista para 2011.

Tegel ainda continua em operação, mas Tempelhof, depois de ser considerado para operar aeronaves da aviação geral e voos regionais, teve seu fechamento decretado pelas autoridades. Um movimento de berlinenses contrários ao fechamento do aeroporto não conseguiu reverter essa decisão. Um referendo foi realizado pela população, e mais de 60 por cento dos votantes opinaram pela manutenção das operações, mas somente 21 por cento dos eleitores participaram da votação, e eram necessários pelo menos 25 por cento para que o referendo tivesse algum valor legal.
Em 30 de outubro de 2008, o último voo regular decolou de Tempelhof, às 22 horas e 17 minutos, em direção à Manheim: um Dornier 328 da Cirrus Airlines. À meia noite, as luzes do pátio e das pistas foram desligadas para sempre. Três pequenos aviões que operavam apenas VFR permaneceram no aeroporto até 24 de novembro, encerrando definitivamente as operações de voo no aeroporto. Na foto abaixo, uma cerimônia de despedida realizada no último dia de operação oficial do aeroporto.
O uso futuro do aeroporto permaneceu incerto por mais de um ano, e suas instalações serviram eventualmente para feiras e shows de música. Finalmente, em agosto de 2009, as autoridades berlinenses anunciaram a criação de um grande parque público, o Tempelhof Feld, que foi inaugurado no final de semana de 8 e 9 de maio de 2010 (foto abaixo).

3 comentários:

  1. Parabéns ! mais um super texto neste blog
    que visito regularmente.

    Abraços,

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  2. Parabens pelo Blog.Muito útil e bem explicado.
    Visitarei constantemente. Sou de familia de aviadores. Amor Eterno pela Aviação.

    Lembramndo que este aeroporto foi utilizado por Hitler e seus homens, com o comandante Hans Baur sempre nos comandos.

    Continue assim.

    Abraço.

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  3. Toda uma lição de historia muito bom

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