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sábado, 24 de agosto de 2013

1967: Acidente com o avião presidencial, com o Presidente a bordo!

Em 1956, o Governo Juscelino Kubitschek adquiriu dois aviões quadrimotores Vickers Viscount 700 para atender a Presidência da República, em substituição aos obsoletos Lockheed VC-66 Lodestar. O primeiro desses aviões, que havia sido encomendado originalmente pela empresa aérea norueguesa Braathens - SAFE, já estava pronto, quando a empresa aérea desistiu da compra, e foi oferecido imediatamente ao governo brasileiro, que o comprou para a FAB, recebendo o registro FAB 2100.
O FAB 2100, logo após ser comprado pela FAB e ainda com pintura civil
O Viscount foi então reconfigurado como aeronave presidencial, com apenas 20 lugares, na Grã-Bretanha, e voou para o Brasil em fevereiro de 1957. O Viscount, rápido, confiável e isento de vibrações, fez sucesso imediato no serviço presidencial, pois podia levar rapidamente o Presidente JK para as obras da nova capital, Brasília. Uma segunda aeronave, o FAB 2101, foi incorporada em 1958.

O FAB 2100, no entanto, logo demonstrou ser uma aeronave "azarada". Na primeira vez, transportando o Presidente Juscelino no trecho voo São Luiz - Recife, teve falha dos motores por entupimentos no sistema de combustível, e teve que pousar em emergência no aeroporto de Fortaleza. O abastecimento com combustível contaminado em São Luiz foi o motivo da falha. A pane foi sanada, e a aeronave reabastecida com combustível limpo, mas o Presidente preferiu pegar um avião comercial para continuar a viagem.
O Presidente Arthur da Costa e Silva, que estava a bordo.
Em 1958, dessa vez sem o Presidente a bordo, o Cel.Av. Josino Maia de Assis, herói da Segunda Guerra, calculou mal a aproximação e quebrou o trem de pouso ao pousar na pista do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Um reparo provisório foi feito, e o avião foi trasladado à Inglaterra, onde foi revisado pelo fabricante. Mas, o pior ainda estava por vir...
O FAB 2100 ainda na Inglaterra, pouco após ser convertido em aeronave Presidencial
Na manhã do dia 8 de dezembro de 1967, o então Presidente Arthur da Costa e Silva embarcou em Brasília no já famigerado FAB 2100, tendo como destino o Aeroporto Santos-Dumont, no Rio de Janeiro. Junto com o Presidente, estavam o chefe do SNI, General Emílio Garrastazu Médici, o General Jaime Portela, chefe da Casa Militar, o Chefe da Casa Civil Rondon Pacheco, o Coronel Massa, subchefe da Casa Militar, o subchefe da Casa Civil, José Assis Aragão, o chefe do cerimonial Marques Coimbra, o Secretário de Imprensa Heráclito Sales, o Comandante Stalla, responsável pela segurança dos voos presidenciais, o médico do Presidente e alguns outros funcionários e funcionárias.
O então chefe do SNI, e futuro Presidente Emílio Médici, estava a bordo
Por volta das 10:30 da manhã, já sobre o espaço aéreo do Rio de Janeiro, o FAB 2100 recebeu instruções da Torre Rio para pousar na pista 02R do Aeroporto Santos-Dumont, aproximando-se, portanto, do lado do morro Pão de Açucar.

O comandante da aeronave, Capitão-Aviador Ariel, fez uma aproximação baixa, para fazer o avião tocar logo no começo da curta pista do aeroporto. Entretanto, por um erro de cálculo ou alguma rajada de vento, as rodas do trem de pouso direito bateram nas pedras proeminentes do quebra-mar que existe naquela cabeceira, ao lado da rua que dá acesso à Escola Naval, na Ilha de Villegaignon.
Croqui publicado pelo O Globo, no dia 9 de dezembro
Um dos pneus do trem estourou imediatamente, e houve vazamento de fluido hidráulico. As rodas se quebraram, o trem acabou cedendo, fazendo com que a asa direita tocasse na pista, assim como as hélices dessa asa. O piloto conseguiu segurar a aeronave na pista durante a corrida de 700 metros até a parada completa do avião. O motor 3 pegou fogo, assim como o fluido hidráulico que vazou do trem, mas os bombeiros do Aeroporto Santos-Dumont, atuando rápida e eficientemente, extinguiram imediatamente as chamas. Eram 10:45 da manhã de um quente dia de dezembro.

Surpreendemente, não houve pânico a bordo. Embora ainda existisse o risco de incêndio ou de explosão do avião, as coisas a bordo aconteceram quase que em câmera lenta. O Presidente resolveu assumir a liderança do salvamento e pediu que as senhoras desembarcassem primeiro. Alguém abriu a porta traseira da aeronave, e foi por lá que os passageiros desembarcaram.
Viscount FAB 2100 nos anos 60
O Presidente saiu calma e lentamente do local, apesar do risco ainda existente. Mas, dezesseis minutos após o acidente, chegou ao Palácio das Laranjeiras, cumpriu rapidamente a sua agenda e, demonstrando muita preocupação, recolheu-se aos aposentos do palácio para se recuperar do susto. A esposa do Presidente, D. Iolanda, que estava em Paris, recebeu a notícia do acidente, e no mesmo dia, às 22:30, embarcou para o Rio, chegando pela manhã do dia 9 de dezembro no aeroporto do Galeão.

O avião acidentado foi rapidamente removido do local, e lá pelas 11:30 da manhã, a pista já havia sido liberada. O pessoal da 3ª Zona Aérea, baseados ali mesmo no aeroporto, começaram as investigações de imediato.

Como se trata de uma aeronave militar, o relatório final do acidente jamais foi divulgado oficialmente, e permanece restrito nos arquivos da FAB. A aproximação foi muito baixa, o que é normal e costumeiro no Aeroporto Santos-Dumont, que tem uma pista muito curta, e qualquer turbulência, comum àquela hora do dia num dia quente, poderia ter baixado o avião o suficiente para que ele batesse o trem contra as pedras proeminentes e pontiagudas do quebra-mar, feito para proteger a pista da erosão das ondas. As pedras foram rebaixadas pouco depois, pela FAB.

Aspecto atual do quebra-mar do aeroporto Santos-Dumont (foto: Google Street View)
A aeronave azarada, no entanto, jamais voltou a voar. Depois de extensas avaliações, o avião foi dado como irrecuperável e foi desmontado. Tinha apenas 1.473 horas de voo. O Governo já tinha encomendado, no mesmo ano, duas aeronaves presidenciais novas, a jato: os BAC One-Eleven. Com a chegada dessas aeronaves, o Viscount sobrevivente, o FAB 2101, foi transferido ao CAN - Correio Aéreo Nacional, e sobreviveu muito tempo na FAB, graças inclusive às peças sobressalentes que foram aproveitadas da sucata do FAB 2100. O FAB 2101 teve uma longa carreira, foi reconfigurado como aeronave presidencial em 1971 e só foi aposentado em 1987, quando foi conduzido em voo ao Museu Aeroespacial, onde se encontra até hoje, perfeitamente preservado.
Foto do acidente. Fonte: Jornal "O Globo".
Em retrospectiva, é de se imaginar as consequências para a história do Brasil, se o acidente com o FAB 2100 tivesse sido mais grave, e se os seus passageiros tivessem morrido no acidente. Além do Presidente Costa e Silva, seu sucessor, o General Médici, também estava a bordo, e um acidente fatal, nesse caso, teria mudado totalmente os rumos da nossa história.
O Viscount acidentado (O Globo, 09/12/1967)
Algumas superstições cercam a história do FAB 2100. O final 00 não parece dar sorte aos aviões presidenciais. Assim como o Viscount que se acidentou, um dos seus sucessores não teve melhor sorte, o FAB 2400. Esse avião era um Boeing 707 da Varig, onde tinha a matrícula PP-VJK. Foi comprado pela FAB para ser avião presidencial e reabastecedor em voo, mas se acidentou tragicamente na Costa do Marfim, em janeiro de 1987, no que deveria ser seu último voo antes de passar para a FAB. Curiosamente, quando o Governo Brasileiro comprou um Airbus A319ACJ para uso da Presidência, mandou a FAB registrá-lo como FAB 2101...



12 comentários:

  1. Professor Jonas não faça mais isso com a gente, é duro entrar toda semana no blog traz de um grande artigo novo! mas como sempre a espera sempre vale a pena, das aeronaves dessa época o Vickers Viscount sempre foi minha favorita, mas sou de uma geração mais recente e por isso faço a pergunta caso o Presidente Costa e Silva e seu sucessor, o General Médici morressem quem assumiria a presidência?

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    1. Pergunta difícil de ser respondida, já que se tratava de um regime de exceção. A principio, creio que a mesma junta militar que substituiu o Costa e Silva quando o mesmo ficou gravemente doente teria assumido, e o sucessor definitivo teria sido um general da Linha Dura, como o Geisel ou o Golbery do Couto e Silva. Desculpe pelo longo intervalo entre as publicações.

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    2. Geisel e Golbery, não eram generais da linha dura. O primeiro foi o general que traçou a abertura que possibilitou a anistia geral e irrestrita. O segundo, Gen Golbery queria a apuração total do caso conhecido como Rio Centro.

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  2. Meu caro, boa tarde

    Gostaria de perguntar ao sr. se já viu o filme "O Voo"? Se já, pergunto se existe a possibilidade de realmente um piloto conseguir voar com a aeronave daquele tamanho invertida, assim como ocorre no filme.abs

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    1. Ainda não vi o filme, mas voar um jato comercial em voo invertido, uma entrada inadvertida em atitude anormal, é plausível sim. Veja aqui no blog um artigo sobre o voo China Airlines 006.

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  3. Muito boa a matéria!!!! Esse blog é sensacional!!!

    Sobre a pergunta do colega acima do filme "O Voo" sugiro ler o post do blog avióes e músivas que fala a respeito deste filme!

    http://www.avioesemusicas.com/duvidas-respondidas-sobre-o-filme-o-voo.html

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  4. CONVITE PARA PARCERIA

    NÓS DO BLOG TORRE MARINGÁ GOSTARIAMOS DE CONVIDAR O BLOG PARA UMA PARCERIA. AUMENTANDO ASSIM A DIVULGAÇÃO DE AMBOS NA REDE.

    JÁ ESTAREMOS DEIXANDO DISPONIVEL O LINK DO BLOG JUNTO A NOSSA LISTA DE PARCEIROS PARA QUE NOSSO AMIGOS LEITORES JÁ POSSAM ACESSAR O BLOG DE VOCES.

    SAUDAÇÕES AERONAUTICAS.
    BLOG TORRE MARINGÁ – SBMG

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  5. Prezado professor, parabéns! Encaminhei este seu artigo para o historiador ELIAS MANOEL DA SILVA, do Arquivo Público do Distrito Federal, para fazer parte do acervo sobre JK. Fui superintendente do Arquivo por quatro anos.
    Voei no Viscount 2101 em 1972, durante 28 dias, como jornalista convidado pelo Ministro das Relações Exteriores Mário Gibson Barboza, visitando dez países da África: Costa do Marfim, Togo, Daomé (hoje Benin), Gana, Senegal, Camarões, Zaire, Gabão, Nigéria e Libéria (apenas pouso de abastecimento). Foi comandado pelo Ten-Cel Aluisio Cesarino de Freitas e pelo Major Roberto Mucillo Medeiros e por um outro major, piauiense, cujo nome não me recordo. Lembro-me de outro membro da comitiva, o SubTen Iassaka. Nossa viagem não atrasou um minuto sequer. Não teve qualquer contratempo. Um abraço,
    LUIZ RIBEIRO DE MENDONÇA - jornalista - 61 3367.6667 - 8477.6667

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  6. Olá professor Jonas! Primeiramente gostaria de lhe parabenizar mais uma vez por esse blog tão bacana que é o paraíso dos que assim como eu amam a aviação. Creio que você deva ser muito ocupado e que deve ser complicado arrumar tempo para alimentar um blog cujo único retorno que você recebe são os elogios e agradecimentos dos leitores. Mas gostaria de fazer um pedido: Por favor não nos deixe tanto tempo sem novas postagens! Entro aqui com freqüência na esperança de encontrar um novo artigo e infelizmente já fazem quase 4 meses que minhas esperanças são frustradas. Novamente volto a frisar que entendo perfeitamente e que o que escrevo não é uma crítica e sim um pedido de um admirador desse seu trabalho. Não sei quais são os motivos que te impossibilitam de postar novos artigos com mais freqüência mas me ponho a disposição para ajudar se a resolução desses motivos estiver ao meu alcance. Já li praticamente todos os artigos desse blog e ficaria feliz em poder ajudar a alimentá-lo. Meu e-mail é thiagopops@gmail.com. Um grande abraço, fica aqui minha oferta e mais uma vez parabéns e muito obrigado!

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  7. Este blog é meu favorito. Não pare ele ! entro sempre esperando materias novas. Que tal historias do cockpit ?

    Um grande abraço !

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  8. Caso esse acidente tivesse sucesso, e esses dois monstros fossem elimenados pelo querosene incandescente, talvez não houvesse o AI-5 (obra de Costa e Silva em 69); e milhares não teriam sido torturados, e algumas centenas mortos, por querer um país justo e soberano.
    Então podemos conjecturar que a redemocratização poderia ter vindo mais cedo, e hoje, 2014, estaríamos em uma realidade de justiça social mais evoluida... Ou não... Se o mais linha-dura de todos, Golbery, tivesse assumido no lugar de Geisel, muito pior teria sido, e talvez muitos mais morrido...
    Conjecturas históricas e opiniões políticas à parte, o seu blog é uma preciosidade de informações aeronáuticas, em um mar de lugares comuns que cercam esse assunto na internet; portanto parabéns professor Jonas!
    Mas escrever que "o presidente resolveu assumir a liderança do salvamento e pediu que as senhoras desembarcassem primeiro", é repetir o que escreveram os jornais da época, censurados e sob intervenção; e lembra os livros didáticos da época, com a sua história manipulada e os heróis de bronze que servem de poleiro e latrina aos pombos... A realidade deve ter sido um "salve-se quem puder" em direção à porta,,,

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  9. Ola... Professor ...Eu me chamo Rafael e venho aqui fazer um pedido ..De 1957 a 1961 meu avo que se chama Adonias Alves Marinho ( 90 anos e mora na Regiao dos lagos Rj ) foi comissario de bordo do aviao presidencial (2001) de JK , ele ficou sabendo que tem fotos dele no memorial de jk, sera que voce professor teria como fazer uma materia com fotos dos comissarios de voo de jk ...Obs...deixo aqui meu contato para eventual contatos futuros...065 81362526

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