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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Francis Gary Powers e o incidente do U-2

A Guerra Fria entre as potências ocidentais e a União Soviética foi repleta de incidentes, entre os quais o mais grave, sem dúvida, foi a Crise dos Mísseis, em 1962, quando o Presidente John Kennedy mandou um ultimato a Nikita Khrushchev para que a URSS removesse os mísseis nucleares de médio alcance instalados pelos soviéticos em Cuba. Essa crise deixou o mundo inteiro em suspense e quase provocou uma "guerra quente" entre americanos e soviéticos.
Um dos mais notáveis incidentes da Guerra Fria envolveu o mesmo tipo de aeronave que descobriu os mísseis em Cuba: o Lockheed U-2. Esse notável e curiosamente simples jato monomotor assemelhava-se mais a um planador do que a um avião militar de combate. Era desarmado, e carregava como equipamento principal câmaras fotográficas de alta resolução.

O grande trunfo do U-2 era a sua altitude de cruzeiro, acima de 85 mil pés, o que, assim pensavam os americanos, tornava-o imune ao ataque dos caças e da artilharia anti-aérea. A grande altitude operacional exigia que seu piloto voasse com um traje de astronauta.

Desde a sua introdução em serviço, em 1957, o U-2 revelou-se extremamente eficiente, especialmente em uma época ainda sem satélites espiões disponíveis. Como se confiava na grande altitude como proteção, muitas missões de reconhecimento (na verdade, espionagem) da CIA - Central Inteligency Agency foram realizadas diretamente sobre o território soviético. Essas missões foram praticamente encerradas quando um U-2 foi derrubado sobre a cidade de Sverdlovsk por um míssil terra-ar, em 1º de maio de 1960.
Essa missão foi conduzida pelo Capitão Francis Gary Powers, então com 31 anos de idade. A base de operações de Powers era Incirlik, na Turquia. O alvo era Sverdlovsk (atual Ekaterimburgo), onde os soviéticos mantinham bases e indústrias estratégicas tão secretas que o acesso à cidade era vedado até mesmo a cidadãos russos de outras cidades sem uma permissão oficial.

A aeronave cumpria sua missão em Sverdlovsk quando foi atingida por um míssil terra-ar S-75 Dvina, denominado SA-2 pelos americanos. Com o motor apagado pelo impacto do míssil, Powers perdeu altura, esperando ejetar quando o avião estivesse mais baixo, onde suas chances de sobrevivência seriam maiores, devido ao ar mais denso e mais rico em oxigênio. Essa manobra foi muito arriscada, visto que expunha a aeronave e seu piloto ao fogo antiaéreo de baixa altitude dos russos.

O U-2 tinha um equipamento de auto-destruição, que tinha a função de impedir o inimigo de conhecer sua verdadeira missão e seus equipamentos secretos. Powers não usou esse dispositivo e viria a ser severamente criticado por isso, quando retornou aos Estados Unidos.

Powers desceu de paraquedas direto para os braços dos agentes da KGB, o Serviço Secreto Soviético, que o capturaram. Os americanos reportaram o desaparecimento em ação de Powers como um "acidente" em uma aeronave de "pequisa meteorológica", devido a "problemas no sistema de oxigênio". Desconheciam o fato de que os russos capturaram a aeronave quase intacta, assim como suas câmaras, que denunciaram a verdadeira função do avião. Isso causou grande constrangimento ao então Presidente Eisenhower, quando foi desmentido pelos russos.

O Capitão Francis Gary Powers foi condenado, em 17 de agosto de 1960, a 3 anos de prisão e mais 7 anos de trabalhos forçados depois de uma "confissão voluntária" de sua missão de espionagem e uma apologia pública de sua participação nos serviços de espionagem americanos. Foi mandado para a prisão de Vladimirsky Central, em Vladimir, a leste de Moscou, reservada a prisioneiros políticos de "alto escalão", onde passaria os próximos 18 meses.

A sorte de Powers mudou quando os russos e americanos resolveram fazer uma "troca de prisioneiros", em 10 de fevereiro de 1962. Powers e um estudante americano, Frederic Pryor, também condenado por espionagem, foram trocado pelo famoso agente russo "Rudolf Abel", nome de guerra do Coronel da KGB Vilyan Fisher, que havia sido capturado pelo FBI em New York em 21 de junho de 1957. A operação de troca de prisioneiros ocorreu na Ponte Glienicke, em Potsdam, Berlim, e foi a primeira de várias operações semelhantes realizadas nos anos posteriores.

Powers retornou aos Estados Unidos, e foi severamente interrogado pela CIA e por uma comissão do Senado americano, sendo muito criticado por não ter destruído a aeronave e os comprometedores filmes. Também foi questionado por não ter utilizado o dispositivo de suicídio criado pela CIA, um alfinete envenenado oculto em uma moeda de um dólar. Powers revelou que todas as suas "confissões" foram realizadas sob tortura física e psicológica.

Devido ao incidente do U-2 em Sverdlovsk, as missões sobre o território soviético foram suspensas e o governo pediu à Lockheed que desenvolvesse uma aeronave que "voasse tão alto quanto o U-2, mas pelo menos 3 vezes mais rápido". Tal pedido resultou no famoso SR-71 Blackbird, capaz de voar mais de 3 vezes a velocidade do som e atingir até 95 mil pés.

Powers deixou a Força Aérea e a CIA e trabalhou na Lockheed como piloto de testes de 1963 a 1970. Faleceu em 1977 em um acidente de helicóptero, na cidade de Los Angeles, onde trabalhava como repórter aéreo para a emissora de TV KNBC. Em 2000, o Governo Americano concedeu homenagens e condecorações póstumas ao piloto, 40 anos depois do incidente que o levou à fama.

Os destroços do U-2 capturado pelos russos ainda são preservados no Museu Central das Forças Armadas em Moscou, na Rússia (foto abaixo). Uma parte dos destroços foi mandada os Estados Unidos, onde estão em exibição no Museu Criptológico Nacional, em Maryland.
Curiosamente, o Lockheed U-2 sobreviveu ao incidente de Sverdlovsk e ao seu sucessor SR-71, e ainda está em serviço na Força Aérea dos Estados Unidos, 52 anos após entrar em operação, e deve permanecer na ativa pelo menos até 2011.

3 comentários:

  1. Adorei o artigo, muito bem escrito e rico em detalhes.
    Parabéns.

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  2. Ótimo artigo. apenas um reparo a um erro, que no entanto é comum em outras publicações nacionais: KGB é uma sigla para Comitê de Segurança do Estado. Portanto, devemos nos referir ao órgão de inteligência soviético como "O" KGB e não "A" KGB.

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    Respostas
    1. Creio que vc tenha razão, Alexandre! Obrigado, vou corrigir.

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