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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

1949: um Douglas DC-4 americano pousa em Paranavaí e Mandaguari

O final da tarde de 23 de novembro de 1949, na cidade paranaense de Paranavaí, foi marcado por um acontecimento notável, que nunca será esquecido por todos os que o presenciaram. Era início da noite quando a população ouviu os motores de um grande aviao sobrevoando a cidade em círculos. O aeroporto de Paranavaí, na época, era uma pequena faixa de grama, utilizável apenas durante o dia, e nenhum voo era esperado àquela hora.
Observando a aeronave circulando várias vezes a cidade, os moradores perceberam que talvez a aeronave estivesse com problemas, e precisasse fazer um pouso de emergência. No Bar Líder, que ficava no centro, algumas pessoas tomaram a iniciativa de levar os carros e caminhões para o aeroporto, e sinalizá-la com o uso dos faróis dos veículos. No caminho, varios moradores aderiram à caravana e rapidamente a pista ficou cercada por faróis acesos, que a demarcaram com bastante precisão.

O pouso do avião não demorou. O piloto, vendo as luzes, imediatamente rumou para a pista gramada e fez um pouso perfeito. O povo de Paranavaí, à época um simples e pequeno distrito de Mandaguari, nunca tinha visto um avião tão grande, e ficou impressionada. Era um grande quadrimotor Douglas DC-4. As pessoas se perguntavam: de onde teria vindo essa aeronave, e qual seria o seu destino?

As portas do avião se abriram e um tripulante apareceu, perguntando para as pessoas abaixo: Isso aqui é Brasil? Uma pessoa no meio da multidão respondeu gritando: Não, isso aqui é Paranavaí! Logo, os ocupantes do DC-4 estavam descendo do avião: eram 8 tripulantes norte-americanos e 74 passageiros mongóis. O comandante do avião logo esclareceu: Seu voo era uma missão da ONU, e trazia da Mongólia esses passageiros que eram refugiados da ofensiva comunista chinesa, que então invadia aquele país. Seu destino era Assuncion, no Paraguai, onde os refugiados iriam encontrar asilo político e começar uma nova vida.
Todavia, o avião encontrou péssimas condições atmosféricas antes de chegar ao seu destino. Tentou traçar uma rota para o Rio de Janeiro, sua primeira alternativa. Durante esse tempo ficou com pouco combustível e começou a procurar um campo de pouso nas então escassas cidades existentes na região, e acabou sobrevoando Paranavaí, onde a população se movimentou e salvou a situação.
A aeronave era da companhia americana Transocean Air Lines, e levava o nome de "Taloa Guam" escrito no nariz. Sua matrícula era N79990, e foi adquirido pela empresa em 1948. Essa etapa do voo tinha começado em Lima, no Peru. O comandante era o experiente piloto Harvey Rogers. Essa empresa foi contratada pela ONU para trazer refugiados chineses e mongóis para as Américas do Norte e do Sul, atravessando o Oceano Pacífico. A foto abaixo mostra um DC-4 da Transocean pousado na escala do Hawaí.
DC-4 da Transocean, em Honolulu
O comandante Rogers e seu navegador, John Roenninger, examinaram as cartas e chegaram à conclusão que deveriam estar em um lugar denominado "Lovatt". Não havia nenhum "Lovatt" em algumas cartas, mas o nome do lugar foi logo reconhecido pelos moradores, era a antiga denominação de Mandaguari. O nome da cidade foi mudado por engano durante a Segunda Guerra Mundial por alguma autoridade do governo, que achou que Lovat pudesse ser um nome alemão. Na verdade, Lovat era o nome de um Lorde inglês, dono da empresa colonizadora do norte do Paraná, portanto um aliado, e não um "inimigo".
Um dos DC-4 da Transocean, em rara foto colorida, nas Filipinas

O problema que se apresentou a seguir foi: onde acomodar esse pessoal todo? Paranavaí era uma pequena cidade de 10 mil habitantes, e não havia hotéis suficientes. O médico Otávio Marques de Siqueira logo ofereceu uma solução: mandou todos para o Hospital do Estado, do qual era diretor. A esposa do médico se responsabilizou pelas refeições. A comunicação era muito difícil: nenhum dos mongóis falava Inglês, e muito menos Português. Mas isso não impediu que as pessoas fossem bem acolhidas e assistidas na cidade.
O Taloa Panama, idêntico ao Taloa Guam que pousou no Paraná
O grande avião ficou cinco dias estacionado no aeroporto, atraindo curiosos de toda região. Virou atração turística. A Força Aérea Brasileira despachou para Paranavaí uma equipe para atender o caso. A aeronave estava intacta, e só precisaria ser abastecida para prosseguir viagem. Todavia, a pista curta e gramada não permitiria a decolagem segura de uma aeronave muito pesada. Os tanques tinham só 250 galões de gasolina, o que daria para alcançar o aeroporto de Mandaguari, sede do município, onde a pista era bem melhor e pavimentada. A FAB cederia algum combustível em Mandaguari. 
DC-4 da Transocean
A tripulação tomou a providência de aliviar o peso do avião, enviando todos os passageiros e suas bagagens de ônibus para Mandaguari. Removeram algumas poltronas também e as enviaram de caminhão para Mandaguari.
Rara foto colorida de um dos DC-4 da Transocean
A decolagem de Paranavaí não apresentou dificuldades. Os tripulantes nunca viram um DC-4 acelerar e subir tão rápido, pois estavam acostumados a decolar o avião carregado e com bastante combustível a bordo.

Em Mandaguari, a história se espalhou, e quase toda a população se apinhou no aeroporto, para aguardar a chegada do avião. Embora Mandaguari já fosse fosse atendida por aeronaves comerciais Douglas DC-3, quase ninguém tinha visto um quadrimotor. O aeroporto parecia uma festa, com carrinhos de pipoca e algodão doce. Muita gente chegou ao local na carroceria de caminhões, e a cidade ficou quase deserta, todo mundo estava no aeroporto.
Desenho de perfil do Douglas DC-4
A chegada do DC-4 em Mandaguari causou uma outra situação embaraçosa. Por essa época corriam boatos de que Hitler estaria vivo e morando em algum lugar da América do Sul. A chegado do DC-4 a Mandaguari provocou um alvoroço na colônia alemã na região, que foi ao aeroporto vestida a rigor, e convidou a tripulação para um grande banquete, para tentar saber se o voo tinha alguma coisa a ver com Hitler. A decepção foi evidente.
O Taloa Guam em Mandaguari, onde chegou no final de novembro de 1949
Logo a tripulação e os mongóis embarcaram, e a aeronave foi abastecida com 1.000 galões de gasolina cedidas pela FAB. Decolou então em segurança para Curitiba, onde foi completamente abastecida, e de lá completou a viagem para Assuncion. Esse episódio foi, entretanto, o acontecimento do ano em Paranavaí e Mandaguari.

Fontes das fotos e texto: Transocean Air Lines (http://www.taloa.org), Arue Szura (Folded Wings: Histoy of Transocean Airlines), Jorge Ferreira Estrada (Terra Crua, 1961), Diva Carmona (testemunha ocular em Mandaguari), David Arioch (davidarioch.worldpress.com), Jornal Paraná Norte (Londrina, 1949).

13 comentários:

  1. Os 25 alemães que convidaram os americanos para um jantar em Mandaguari tinham muitas perguntas para a tripulação: Desconfiavam eles que Hitler estivesse em Mandaguari?? Tinham bombas e armas para matá-lo?? Era essa a sua missão? Os tripulantes jamais esqueceriam esse jantar...

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  2. No final da década de 40, corria um boato de que Hitler teria sobrevivido à guerra e estaria escondido na América do Sul. Estaria morando em Rolândia, Mandaguari ou Londrina, onde havia colônias alemãs. Mito jamais confirmado...

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  3. Muito bom !!

    Eu desconhecia esse fato histórico !

    Parabéns pelo post.

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  4. Opa Jonas.

    Parabéns pela matéria.

    Coloquei no meu blog (Aeroblog) com seu devidos créditos, lógico.

    Caso queira dar uma olhada:

    http://aeroblogbrasil.blogspot.com

    Abraços.

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  5. Sou apaixonado pela viação, li, emocionei e chorei ao ler essa história. Tenho 34 anos de idade e não sou um piloto por que sou surdo, mas graças a Deus na medicina realizarei partes dos meus sonhos viajando muito pelo mundo afora... queliansam@hotmail.com

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  6. Bom dia, Meu nome é David Arioch, sou jornalista em Paranavaí e pesquisador da história local, inclusive já escrevi várias matérias sobre o pouso forçado do DC-4. Devo dizer que algumas informações mencionadas acima remete ao conteúdo de uma delas. Também posso afirmar que essas imagens foram copiadas do meu blog: davidarioch.wordpress.com

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  7. Bom dia, David, obrigado pela visita. As fotos e o texto estão devidamente creditados, como você pode ver acima, ok? Algumas imagens foram realmente copiadas do seu blog, mas já estavam publicadas na época pelo Jornal Paraná Norte. Outras são originadas de sites e livros americanos, também devidamente creditados acima. Obrigado e volte sempre.

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    1. David... Arrogância desnecessária. Que vergonha! Jonas, Obrigada por seu relato. Sou nascida em Paranavaí, filha de pessoas que não nasceram lá e chegaram à cidade em 1952, após, (obviamente) o ocorrido, de forma que não havia ouvido antes esta história. Gostei de Saber. Tenho orgulho da minha terra e do meu povo. "Aqui não é Brasil, AQUI É PARANAVAÍ"! Obrigada.

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  8. Fabulosa história. Este evento sempre esteve presente na nossa história familiar: Já em Mandaguari, meu tio Ari Oswaldo Corrêa de Almeida (empresário, cafeicultor, ex-vereador, 1915 - 1997) hospedou em sua residência alguns dos tripulantes da referida aeronave. Antes de partirem, ele entregou uma saca do melhor café que possuía ao piloto e disse para que ele entregasse ao presidente dos EUA. Partiram com mais esta missão...
    Após vários meses ele recebeu uma carta da Casa Branca, assinada pelo próprio mr Harry S Truman, agradecendo pelo presente enviado.
    Raquel L Almeida Cesar, São Paulo, SP

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    1. Victor, boa tarde!!!

      Por ser nascida em Paranavaí, recebi uma solicitação onde informava que um filho de um amigo também de Paranavaí que hoje é jornalista e apaixonado por aviação pretende escrever um livro sobre este acontecimento. Você poderia contribuir com ele? Este livro faz parte da nossa vida, mostrando que o povo da nossa terra, além de tantos outros predicados, têm também um enorme coração. Abraço.

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    2. Marilza, se alguém em Paranavaí quiser escrever alguma coisa sobre esse episódio, ficarei extremamente feliz em colaborar com esse trabalho. Muito obrigado pela visita e pelos comentários postados.

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  9. Quem lê sabe mais, foi o que fiz!!!!
    gostei da publicação............. Silva - Foz do Iguaçu - Pr.

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  10. Cara Marilza,
    Perdoe-me pelo longo silêncio.
    Se o interesse pela história continua em pé, envie uma msg para lccboss@gmail.com e amarrarei as pontas com os familiares que residem em Londrina. Creio que preservaram fotos, documentos e relatos do evento.
    Convém investigar os arquivos do Governo dos USA, certamente há muita informação nos "diários de bordo" - não era um voo trivial.
    Luiz Barbosa, Raquel e Victor.

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